Nasci numa casa de porta e janela na Rua Gervásio Pires, no Bairro da Boa vista, em Recife.
A casa era estreita e comprida. Tinha um quintal nos fundos, onde eu adorava brincar e tomar banho de bica quando chovia. A água era forte e morna. Com o calor que faz nos verões aqui no Nordeste, não podia ser diferente.
Eu adorava subir no telhado e comer mangas que pendiam da mangueira da casa vizinha. Meu pai brigava, pois eu sempre quebrava algumas telhas no processo.
Morei nessa casa até uns 10 anos de idade. Nesse tempo, uma das principais atrações do carnaval do Recife era o Corso, que acontecia bem ali na esquina, na Avenida Conde da Boa Vista. O trânsito ficava parado, o que propiciava a interação entre os carros, quase todos sem capota, com muita gente jogando lança perfume, pitombas e uma mistura de água com farinha de trigo, que caracterizava o famoso mela-mela.
Eu adorava o Corso. Meu pai tinha um Jeep 1951, que ele amava e que usava para ir às caçadas nos fins de semana. Nos carnavais daqueles anos, esse era o carro para se ter.
Não sei o que passava na cabeça dos pais para levarem seus filhos àquelas festas com uma quantidade sem fim de Palhaços, Pierrots, Alas-Ursas (Ala-Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro), Mascarados e….Caboclinhos.
Ah, os caboclinhos. Que medo! Eu morria de medo daquele grupo de gente fantasiado de índio. Homens e mulheres com rostos pintados de vermelho, vestidos de tangas, cocares, penas nos braços e nas pernas, colares de contas coloridas. Como uma tribo de guerreiros que vai para a guerra, uns tocavam tambores e flautas e outros batiam na boca fazendo sons indescritíveis e pavorosos para mim, que, com uns seis anos de idade, corria para dentro de casa e (quase) chorava.
Os piores e mais amedrontadores eram os arcos e flechas que portavam. Quando os Caboclinhos atiravam, as flechas não saíam, apenas batiam nos arcos, fazendo um ruído de madeira na madeira. Muitos arcos e muitas flechas. Muitos caboclinhos. Tac, tac, tac, tac, batiam as flechas. U, hu, hu, hu, hu, gritavam, batendo os pés no chão.
Passavam rápido deixando-me para trás com medo, muito medo, de voltarem. E sempre voltavam.
Pesquisando para este post, fiquei sabendo que há denominação para quase todos os tipos de fobias. Descobri umas muito curiosas, como por exemplo: a Luposlipafobia, que é o medo de ser perseguido por um lobo-cinzento ao redor da mesa da cozinha, enquanto se está vestindo meias sobre um chão recém-encerado e a Hipopotomonstrosesquipedaliofobia, o medo de palavras grandes. Quem tem esta última não pode nem pronunciar esse nome!
Existe também a Coulrofobia, o medo de palhaço! O Stephen King deve amar essa.
Com deveria se chamar o medo de caboclinhos? Não sei se foi descrito. Nem sei se há outras pessoas com medo deles, como eu.
Pensando bem, a infância é mesmo assustadora.
As crianças convivem desde cedo com medos. Os pais adoram assustá-las. Não entendo como podem cantar canções de ninar do tipo: Boi, Boi, Boi, Boi da cara preta. Pega essa criança que tem medo de careta. Ou então: Nana neném, que a Cuca vem pegar…eu achava que a Cuca era aquele dragão simpático do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Descobri, muitos anos mais tarde que a Cuca é uma bruxa, que sequestra crianças.
Como se pode dormir assim?
Na minha infância, as crianças eram também aterrorizadas com tal do Papa-figo. Um bicho-papão que vinha comer o fígado e tomar o sangue das crianças desobedientes. Um horror!
Na estória do Chapeuzinho Vermelho, sucesso de vendas de disquinhos da época, tinha um lobo-mau que pega as criancinhas para fazer mingau!
Havia também o Curupira. Um ser fantástico. Uma pessoa pequena, de cabelos vermelhos, com os pés virados para trás, que habitava as florestas do Brasil e iludia os visitantes e caçadores dessas matas, fazendo-os se perder por lá, para nunca mais serem encontrados.
Na minha época, os pais adoravam coagir as crianças dizendo: faça sua tarefa de casa senão eu te levo pro médico (ou pro dentista) para tomar uma injeção!
E assim fui criado. Com medos e mais medos.
Não sei como sobrevivi.



