Jeová dos Anjos era um homem de poucos amigos. Aos seus trinta e poucos anos, sempre levou a vida de maneira quieta e calma. Ninguém o notava. Era um cidadão invisível. Seus vizinhos nem sabiam que naquele pequeno apartamento vivia alguém. Tinha apenas um amigo, Josué, um funcionário da padaria do Sr. Demóstenes, que todo mundo chamava de Sr. Demo.
Josué e Jeová tinham uma brincadeira silenciosa. Sempre que um deles estava de folga, seguia o outro por todo o dia. O barato deles era contar o que o que viu o outro fazer, por onde andou, o que comprou, com quem falou sem que o outro percebesse e darem baixas risadas. Sim, Josué também era adepto ao minimalismo sonoro.
Sempre que podia, Jeová ficava em silêncio por dias. Fazia um jejum de palavras. Gostava de ficar só, pensando nas coisas que queria dizer, mas sem dizê-las de verdade. Pensava cada coisa! Insultos, cantadas e ironias eram suas preferidas. Ao cruzar com uma mulher bonita na rua, pensava “que gostosa! Ô lá em casa…” Se o caixa do supermercado demorava, ele fechava os olhos e pensava “amigo, você é muito lento! Parece uma tartaruga com reumatismo! Tenho mais o que fazer! Anda!” Abria os olhos e ficava com aquele sorriso maroto de quem tem razão e que acabou de desabafar.
Esse modo de ser o mantinha calmo. Nunca discutia com ninguém, porque dentro dele as coisas já estavam resolvidas.
Uma tarde, ao sair do zoológico, Jeová vinha distraído lambendo o seu sorvete de casquinha e não reparou na mulher que vinha em sentido contrário. Ela, olhando o seu celular, não viu Jeová vindo em sua direção e eles se esbarraram de frente!
– Ei, moço! Olha por onde anda! O senhor me sujou toda de sorvete. Puxa vida! Oh, não! O meu celular caiu na jaula dos macacos! Bem dentro de uma poça d’água! Caramba!
A mulher, que havia caído sentada e meio desajeitada, tentou levantar-se, mas sentiu muita dor no tornozelo. Tinha tido uma pequena fratura e ficou chorando de dor. Por conta disso, ficou com o pé engessado por 30 dias e perdeu uma importante viagem de trabalho. Chorava de raiva todos os dias.
Jeová, que não sofrera nada nesse esbarrão, ficou triste por perder o seu sorvete e xingou mentalmente essa mulher distraída que estava olhando apenas para o celular. “olha pra frente, mulher! Parece um zumbi! Você até que não é feia, mas não deve ser muito inteligente! Que coisa! Imagina se eu estivesse tomando uma sopa!” Foi tudo o que ele conseguiu pensar dela. Apesar de serem apenas pensamentos, Jeová era incapaz de falar palavrão. Claro que tudo isso foi presenciado por Josué que, do outro lado da rua, riu muito do que viu.
Ainda com o gesso no pé, a mulher se arrastou a uma delegacia e fez um boletim de ocorrência, acusando o coitado do Jeová de agressão e pedindo providências. Ao mesmo tempo, contratou um advogado para entrar com um processo exigindo ressarcimento por danos morais e materiais.
Alheio a esses iminentes problemas, Jeová seguia com a sua vidinha. Poucos dias depois, recebeu uma intimação para comparecer à delegacia e prestar depoimento. “Como a polícia sabia o meu nome e o meu endereço? Pensou.
Curioso, na data e hora marcadas, compareceu ao 18º distrito. Apresentou-se e foi questionado sobre os fatos daquele dia no zoológico. Ele deu a sua versão e foi liberado. Achou que ficaria bem na fita, já que tudo não tinha passado de um acidente de trânsito de pedestres.
No dia seguinte, recebeu uma notificação judicial. Estava sendo acusado de agressão e havia um pedido de compensação financeira para aquela mulher. Ficou indignado.
A audiência estava marcada para dali a quarenta e cinco dias. Ele tinha de se preparar e provar sua inocência. Até porque não teria como pagar nada.
Lembrou-se de Josué, que lhe havia contado que tinha feito xixi nas calças com a cena do esbarrão. Chamou-o para uma conversa em seu apartamento.
– Josué, preciso que você dê o seu depoimento em meu favor para o juiz.
– Claro, amigo. Com o maior prazer. Afinal, você não teve nenhuma intenção de esbarrar naquela gostosa.
– Como?
– Você não viu direito? A mulher era um avião! Aquela blusinha transparente…. Puxa!
– Não vi nada Josué! Nem fale disso. Se o juiz detectar qualquer insinuação sua, vai achar que eu fiz de propósito.
– Pode deixar. Relatarei apenas os fatos. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
– Josué! É sério, cara.
No dia da audiência, Jeová e Josué com o auxílio de um defensor público se apresentaram diante do juiz. A mulher seu advogado também ali estavam.
Iniciada a audiência, cada uma das partes foi inquirida pelo juiz e contou a sua versão dos fatos. A mulher insinuou que o Jeová esbarrou nela de propósito, com intuito de tocar-lhe o corpo. Jeová, pasmo com as mentiras que estavam sendo ditas ali contra ele, pensou: “ainda bem que eu tenho uma testemunha. Ele vai esclarecer tudo e confirmar a minha versão!”.
O juiz chamou o Josué para depor.
– Nome completo e profissão?
– Josué Alves da Silva, auxiliar de padeiro.
– O senhor é testemunha do Jeová?
– Não senhor. Sou católico.
– Mas o senhor não veio dar o seu testemunho para Jeová?
– Pensei que aqui fosse um fórum e não uma igreja…
– O senhor está de gracinha? Posso mandar prendê-lo por desacato!
– Desculpe, meritíssimo.
– Muito bem. Vamos ao caso. O que fazia o senhor no dia treze de junho passado?
– Eu estava de folga. Estava um dia lindo e resolvi seguir Jeová.
– O senhor é seguidor de Jeová?
– Meritíssimo, eu sigo Jesus. Já lhe falei.
– O senhor está abusando da minha paciência. Conte o que viu, por favor!
Josué contou tudo. Viu que os dois não estavam prestando atenção à frente quando houve o esbarrão. Contou que riu muito e que essa brincadeira de seguir era uma coisa de amigos, que eles faziam sempre.
Diante dos fatos, o juiz anulou o processo e Jeová ficou livre da acusação de agressão e dos pagamentos de danos morais e materiais.
Jeová voltou para casa, tentando ficar ainda mais invisível. Passou a trabalhar só um período na firma de contabilidade, onde era servente. Com o dinheiro mais curto, passava sempre na padaria e gostava de comer os restinhos de massa de pão que o Demo amassou.
Ele e Josué ainda continuam amigos e se seguem quando dá.
Indignada com o resultado, a mulher seguiu a sua vida tentando esquecer de Jeová e do esbarrão. Passou dias recebendo ligações de seu celular feitas pelos macacos do zoológico. Até que a bateria se esgotou. Ela nunca mais foi ao zoo, lógico.
Quanto tempo, Osires! Como sempre, quando leio seus textos curtos e engraçados me divirto muito! Muito bem elaborados! Grande abraço!
*Aristóteles Moura Tavares Júnior* OAB/PB n° 18.347
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