Bartolomeu era um menino muito tímido. Nasceu numa família modesta, no interior de Pernambuco. Tem o mesmo nome que o pai, farmacêutico profissional e relojoeiro (amador, como se autodeclarava) da cidade, conhecido por Seu Memeu.
Por ser filho de Seu Memeu, sofrera bullying na escola. Todos os chamavam de Memeuzinhoooo. Ele ficava furioso, mas não podia demonstrar. Ria amarelo e sofria em silêncio. Ele nunca teve coragem de demonstrar sua revolta e dizer bem alto: O MEU NOME É BARTOLOMEU! MEMEUZINHO É A PUTA QUE LHE PARIU! Embora ele sempre tenha dito isso por dentro.
Memeuzinho, quero dizer, Bartolomeu conseguiu terminar o segundo grau em sua cidade e foi para a capital fazer um curso superior. Farmácia! Essa era a profissão do pai e seria a sua. Ele iniciaria o que sonhava ser uma grande linhagem de farmacêuticos. Cientistas silenciosos que poderiam curar os males do mundo. Além do mais, o cheiro de éter e outras essências que pairavam no ar da Botica do pai sempre o fascinou. Ver Ser Memeu manipulando pós, géis, líquidos de cores estranhas era o máximo. Era como ter um Kit de experiências químicas gigante.
Alguns anos mais tarde, Bartolomeu já formado, conseguiu uma bolsa para fazer um curso de mestrado e doutorado na Université de La Pharmacologie de l’Alsace – Universidade da Farmacologia da Alsácia. O must! A mais renomada universidade em seu ramo da Europa. A mais exclusiva, mas, certamente, a menos conhecida de seus ex-coleguinhas ignorantes da escola que deixara para trás em sua cidade natal.
Partiu Bartolomeu para a Alsácia. Não dominava o idioma francês, língua que se falava naquela região da Europa. Conhecia apenas algumas palavras aqui e ali, que lera nas bulas das drogas que o pai importava. Arranhava o inglês e achou que conseguiria fazer esse curso na boa. A duras penas, terminou o curso e, após 4 anos, iria retornar para sua cidade.
Em sua cabeça, seria recebido pelo prefeito. Desfilaria em carro aberto pela cidade. Papéis picados sendo jogados dos 2 edifícios de 6 andares que existiam no Centro. Assumiria a Botica do Seu Memeu e o mandaria pescar. Um novo tempo estaria começando! O Agora “Doutor” não mais seria chamado de Memeuzinho. Imporia respeito. Seria o tal. As moças da cidade o teriam como o melhor partido. Casaria e teria alguns filhos, que certamente dariam continuidade à linhagem de grandes farmacêuticos.
Antes de sair da Alsácia, enviou ao pai um telegrama com os detalhes do voo de regresso. O pai, já idoso, não poderia ir, mas avisou ao prefeito que o seu filho estava chegando da Alsácia!
– Da Alsácia! Que maravilha! Exclamou o prefeito, sem saber direito o que era a Alsácia. Uma cidade? Um país? Uma escola? Um vegetal? Ele comeu um pé de Alsácia e passou mal… pensou.
O prefeito, com os parcos recursos que tinha para eventos, preparou uma recepção modesta na sede da Prefeitura e convidou as principais autoridades e famílias mais proeminentes. Afinal, não era todo o dia que um filho da cidade retornava da Alsácia!
Bartolomeu chegou no aeroporto e ninguém o esperava. Ele já sabia que o seu pai não poderia ir, mas ninguém? Resignado, contratou um táxi para levá-lo até a sua cidade. De ônibus não dava. Trazia consigo muitos livros e muitas amostras de produtos miraculosos que aprendera como manipular com seus mestres.
No caminho, pensou: vou, finalmente, ter o reconhecimento que mereço! Agora, eu quero ver o Luceninha, que tanto me achincalhava! Enquanto ele ficou na pequenina cidade do interior, eu, o Doutor Bartolomeu, retorno em triunfo!
Na noite de sua recepção, muita gente compareceu à festa. Claro, uma boca-livre financiada pela prefeitura não acontecia toda hora. O Prefeito deu as boas vindas e entregou ao Doutor Bartolomeu a Chave da Cidade, que mandara confeccionar no melhor serralheiro do município. Sem licitação, pois era uma emergência.
Após breve discurso, o prefeito começou a circular pelo salão de festas da prefeitura para apresentar o Doutor Bartolomeu à Nata da Sociedade e aos empresários do comércio e da indústria (sim a única) de couro da região.
– Doutor Moisés, quero lhe apresentar o Doutor Bartolomeu. Ele veio da Alsácia! Já imaginou? Da Alsácia! Diretamente para a nossa cidade! Que orgulho! O filho pródigo à casa torna!
– Boa noite, senhoritas, disse o prefeito levando o Doutor Bartolomeu pelo braço ao encontro de um pequeno grupo de moças. Este é o Doutor Bartolomeu da Alsácia. Sim, já tinha incorporado ao nome o lugar onde passara os últimos quatro anos. As moças sorriram e se assanharam.
Bartolomeu, como sempre, apesar de sua inteligência privilegiada, continuava muito tímido e quase nada aproveitou de sua noite de recepção. Não comeu ninguém e os contatos com os empresários não lhe renderam grandes coisas.
Como planejado, assumiu a botica do pai. Seu Memeu se aposentou e nunca foi pescar, pois achava aquilo um saco.
A Botica nunca evoluiu. Teve até um movimento maior, logo após ao seu regresso, mas logo as coisas voltaram ao normal. Um creme aqui, outro acolá. Um xarope contra tosse. Um unguento para as artrites dos mais idosos. E só.
A Alsácia nunca fez muita diferença em sua vida, embora a farmácia o fizesse feliz.
Nunca casou e a sua linhagem de grandes farmacêuticos morreria ali. Com ele.
O que lhe enchia os cornos era o seu nunca-amigo de infância Luceninha, que vez por outra passava de carro com outros amigos e garotas e gritavam: Doutor Memeuzinhooooo!!!!
DOUTOR MEMEUZINHO É A PUTA QUE LHE PARIU! Gritou Bartolomeu para dentro.
Ninguém ouviu.
Pobre Dr. Memeuzinho…mas a vida é como é, onde ele teria errado, se é que errou, talvez devesse ter ficado na Alsácia, aí sim “le petit Memmeu serait un grand pharmacien “
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Mas, não era esse o seu plano, né? Voltar para a terra natal e dar continuidade à linhagem de grandes farmacêuticos era muito mais tentador.
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