Valores invertidos

Padrão

Vivemos dias estranhos.

Tenho lutado arduamente comigo mesmo para não publicar nenhum post com conteúdo político, pois procuro escrever sobre coisas do cotidiano. Coisas que me aborrecem ou que acho erradas.
Entretanto, a política brasileira é, atualmente, o assunto mais cotidiano. Não sei dizer ao certo, mas creio que uns bons 70% dos noticiários da TV estão dedicados à corrupção, bandidagem política, delações premiadas ou não, queda do governo, subida de outro, assuntos judiciários, evasão de divisas, rombo nas contas, falta de responsabilidade com a coisa pública, pessoas presas, outras sendo mandadas para casa com tornozeleiras eletrônicas… Ufa!

Tudo isso me aborrece demais! Então, se me aborrece e é cotidiano, pode ser tema de post.

Uma coisa que me chama muito a atenção é a inversão dos valores. Certa autoridade com foro privilegiado foi pega em conversa pouco republicana com uma ex-autoridade que estava tendo o seu telefone monitorado pela Polícia Federal.

Pois bem, essa autoridade não cansa de falar que acha isso uma ilegalidade. Diz que é uma ameaça ao Estado Democrático de Direito essas conversas terem sido divulgadas e faz críticas ferozes ao juiz que permitiu a publicidade da gravação. O curioso é que em nenhum momento eu vi essa autoridade desmentir convincentemente o conteúdo da conversa, que soava como pura obstrução à justiça. Quando o fez, apresentou uma versão totalmente invertida da realidade. Invertida e descarada.

O que me chateia, não é o fato da conversa interceptada, em si. É a explicação mal dada, subestimando a capacidade de entendimento da população. Os únicos que acreditaram, ou fingiram que o fizeram, foram aqueles fiéis escudeiros que estavam ali na plateia. Poucas pessoas. Acho, até, que mesmo dentre elas muitas não criam naquilo.

Essas “autoridades” precisam entender que dizer uma mentira repetidas vezes não a torna uma verdade, como dizia o chefe da propaganda nazista. Dizer uma mentira repetidas vezes é mentir muitas vezes.

Nosso Brasil é peculiar. Um país lindo, com tanto potencial para tudo. Somos, porém, uma nação estranha. Estamos acostumados com um estado de coisas que causaria arrepios a habitantes de outros países.  Temos um sistema capitalista que quer ser socialista. Ou socialista que quer ser um pouco capitalista. Temos um governo que se intromete na vida do cidadão, obriga-o a votar, cobra o mais que pode em impostos e taxas e dá muito pouco em retorno. Apesar de todas essas mazelas, ainda nos consideramos abençoados por Deus e bonitos por natureza. Deus é brasileiro, blá, blá, blá

Acho que é por sermos uma espécie de gente e país tão curiosos que existem estudiosos americanos que se denominam “Brasilianistas“. Nunca ouvi falar de um Francesista, ou Africanista, ou Italianista

Querem outro exemplo de inversão de valor? Ontem, eu fui a uma clínica de fisioterapia fazer uma avaliação e marcar umas sessões. Após ter passado pela primeira parte, dirigi-me à recepção para agendar as sessões, que haviam sido determinadas pelo meu ortopedista.

Uma única recepcionista atendia uma mulher a minha frente e havia outras quatro atrás de mim.

No meio do demorado atendimento dessa mulher à minha frente, o telefone da clínica tocou. A recepcionista atendeu de pronto e começou a conversar com alguém que queria agendar sessões. O mesmo que queríamos, eu e a mulher da frente! A recepcionista começou a teclar no computador e a falar com a pessoa ao telefone: A senhora pode começar segunda que vem às oito e quinze? Não. Sei. Deixe-me ver outro dia…

Ou seja: as pessoas da fila não têm nenhuma importância diante de alguém que telefona. Ficar ali passivamente esperando não nos garante sermos atendidos na nossa vez. Basta que alguém telefone para passar à nossa frente.

Eu reclamei com a recepcionista e ela me disse: senhor, um minutinho! Eu respondi: peça, por favor, um minutinho à pessoa da linha ou pegue o seu número e ligue para ela após atender a todos nós daqui da fila, ora!

Isto já aconteceu comigo outras vezes em diversas situações. Tenho certeza que com vocês também.

Precisamos urgentemente reavaliar nossos valores e a ordem deles na nossa vida. Temos de nos desacostumar com o que está aí ou viveremos sempre sendo passados para trás.