Muito barulho para tudo.

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Sábado de sol.

Dia lindo. Resolvo ir à praia. Maré baixa, bem sequinha. Delícia ficar nas piscinas naturais da praia de Boa Viagem, já que tubarão nenhum se aventura em águas tão rasas.

Já ao parar o carro, começa o aperreio. Tem um cara me encarando na calçada, esperando eu sair do carro. Será que vai me assaltar? Penso. No mesmo instante em que abro a porta, ele me diz, segurando a porta para eu sair:

-Cadeirinha na praia, doutô? Paga só a consumação.

O cara me segue até a praia e garante que eu me sente numa de suas cadeiras.

Mal eu sento, começa o assédio e o barulho:

-Camarão, aí doutor? Uma provinha?

-Não, obrigado

-Amendoim torrado e cozinhado! Grita um.

-Cachorro quenteeee! Grita outro.

Someone told me long ago…, Sentimental eu sou, eu sou demais…,  But I still remember she made cry…, Meia noite no meu quarto, ela vai subir…”  Uma coletânea de flashbacks toca a todo volume num carrinho que vende esses CD’s. Muito alto mesmo.

-Naiara Júlia! Coidado com seu irmão!!! Rrenha pra cá, danada! Rrenha tomar água! Grita muito alto e várias vezes a minha vizinha. Nada de Naiara Júlia vir. A mãe resolve então ir buscá-la e a traz levantando-a por um dos braços. Naiara Júlia chora muito.

-Olha a Saladdáaaaa, Saladaaaa de frutaaaaaaáá! Tem de 4, de 5 e de 6 reáaaais!!! Grita um bigodudo.

-Camarão aí, freguês? Novinho. Quer provar?

-Não. Sou alérgico. Obrigado.

-Sacolé. Olha o sacolé. Cinquenta centavos!! Vai de sacolé aí, amigo?

-Não, obrigado.

Na avenida, passa um carro com um som num volume que deve dar pra ouvir na Lua, tocando música sertaneja.

Lá vai Naiara Júlia, de novo, correndo para a água. Desta vez com um picolé vermelho derretendo na mão.

O cara da cadeira desaparece. Fico em pé procurando-o  e colaboro com o ruído geral assoviando para ele trazer um coco gelado.

O carrinho dos CD’s está voltando.

Chega uma cigana e pede para ler a minha mão. Digo que não quero. Ela fica em pé na minha frente, com aquele vestido amarelo florido e com um sorriso maroto deixando à mostra um dente de ouro. Pede de novo para ler a minha mão, desta vez em tom mais intimidador, como que querendo dizer: se não me der a mão eu rogo uma praga. Praga de cigana é o fim. Ninguém precisa disso. Muito menos eu. Resolvo dar uns trocados para ela ir embora. Dou duas moedas de um real. Ela me olha de lado. Sai calada devagarinho e fica me olhando de lado, com cara de má. Será que rogou praga? Será que praga só pensada vale ou tem de ser dita?

Depois desse estresse todo, resolvo ir-me embora. Assovio de novo, desta vez mais alto, pro cara das cadeiras. Pago e vou. Ele me segue. Quando chego ao meu carro, ele tira um papelão que deixou no para-brisa e fica esperando uma gorjeta. O cara das cadeiras é também tomador de conta de carro. Claro. Combinação perfeita.

Vou para casa, tomo um banho, troco de roupa e resolvo ir a um restaurante almoçar.

Como se grita nos restaurantes! Alguém pode me explicar o porquê de tanto barulho? Restaurante grande. Aberto. Barulho dos carros que passam na rua ao lado. Grito das crianças que correm por lá. Uns oito televisores ligados ao mesmo tempo, com volume nas alturas. Som que se junta à música ambiente, que também é alta. Claro que para conversar, as pessoas têm de gritar. Pedi umas cinco vezes para o garçom baixar o volume da TV que estava bem em cima da minha mesa. Não tive sucesso.

Deve fazer mal comer com tanto barulho. Acho que já li alguma coisa sobre isto.

Como somos barulhentos! Fico com vergonha de sermos assim.

A gente vê nos filmes as pessoas falando bem baixinho. Até brigam sussurrando! Uma maravilha! Que inveja!

Quero morar nesses filmes! Acho que Naiara Júlia também deve querer.

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